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“Papai, nós vamos ver Branquinha e Roxinha no céu?


Canindé de São Francisco/SE – Essa foi a pergunta de uma criança de apenas seis anos de idade ao pai diante da situação da seca que esta fazendo vítima a vegetação, o gado e seres humanos nesse sertão de Sergipe esquecido por quem tem a condição de estudar e planejar a viabilidade de projetos e aplacar o sofrimento imposto por esse fenômeno climático justificado por muitos em dizer que ele é natural e portanto nada pode ser feito. “Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz comete pecado”. Vergonha, vergonha e vergonha. 

Adeval Marques

Soninha tem seis anos é filha de um José Ailton que tinha um rebanho de trinta e duas rezes e agora passa a ter vinte e quatro. Há onze dias, depois de muita luta e sofrimento, José Ailton colocou mais duas vacas em redes feitas de couro que, sustentadas por quatro paus, conseguem deixar o animal em pé. Depois de muito trabalho, ontem pela tarde, morreu a vaca Roxinha e agora vai-se também Branquinha que era uma vaca bonita da cor de fogo e pertencia a menina Soninha que, diante da perca das duas, sem nada entender sofre a seca que castiga homens e animais, perguntou ao pai José Ailton: “Papai, nós vamos ver Branquinha e Roxinha no céu? Diante de tal pergunta José Ailton, homem nascido e criado no sertão, feito na lida bruta no cuidar de gado não se conteve, baixou a cabeça e saiu para um recanto da cerca fingindo que estava indo à procura de algo quando na verdade ele chorava porque também é parte da realidade que aflige essa parte esquecida pelo poder político do País e do Estado de Sergipe e que nesse final de mandato também pelo município. 

A seca é terrível, devasta tudo a sua volta. A paisagem transforma-se de um verde lindo para um marrom esquelético. A terra vermelha-se qual brasa em chama. O vento, outrora gostoso de sentir torna-se quente a cada lufada que ao corpo do ser vem encontrar. A água, bem dado por Deus a todos os seres, se faz escassa. O gado muge de dor, de sede e de fome por falta da relva e do pasto que se findou. Se morre o gado também padece o dono. 

O criador do gado, valente e astuto sertanejo, olha para o céu e faz oração. Pede a Deus para a chuva voltar e a relva nascer, as barragens encher e sua dor findar. Sua dor é grande porque é impotente ou incapaz de lutar contra tal potente fenômeno. Não sabe fazer outra coisa e assim permanece na insistência de criar o rebanho bovino. É um lutador por natureza, não desiste nunca e “antes de tudo é um bravo”. Sempre o será o povo que nasceu por estas paragens sertanejas. Se morre o gado também padece o dono. Dia após dia a vida se vai no sertão. 

Iguais a José Ailton existem vários outros criadores que se encontram na mesma situação. O gado fraco em redes vai pouco a pouco morrendo e liquidando os rebanhos todos os dias. Foi sempre assim,contudo, é lamentável que em Canindé, distante do rio, em qualquer ponto, por menos de oitenta quilômetros, a problemática da seca ainda nunca tenha sido resolvida. Mais inacreditável ainda é ver que, passados oito anos da gestão atual do Prefeito Orlando Porto de Andrade e sendo aliado do governador Marcelo Déda, nunca foram elaborado projetos para pensar sobre como criar soluções inteligentes para amenizar ou aplacar o sofrimento da vida como um todo nesta parte esquecida do Estado. Onde estão nossos dirigentes de Estado e Município? O povo sertanejo só serve para dar o voto? Somos iguais ao gado que morre de fome e de sede sem ter atenção, é esta a frase que melhor se aplica no momento. “Digo: Canindé, curral de votos?." 

Nesse final de gestão de Orlandinho, segundo pronunciou o novo Prefeito Heleno Silva, foi preciso ir até o Ministério Público local para que fosse traçado um “Termo de Ajuste de Conduta” onde a Prefeitura continuava a colocar a água até o dia 31 de janeiro/2012 e sobre qual a nova gestão de Heleno Silva pagará já em seu mandato a partir de janeiro de 2013. Eu, aqui da minha cadeira fico me perguntar: “O município está falido que não consegue manter em operação os carros de abastecimento de água para amenizar a situação? É o fato da derrota do candidato do grupo da situação? Falta de atenção social e humanismo? Não sei o que dizer, contudo, enquanto cidadão posso pensar e argüir sobre tal situação calamitosa por falta de implantação de políticas voltadas para os criadores de rebanhos do nosso sertão e nisso o Governo do Estado tem grande culpa e máxima culpa. 

Só sei que a situação de José Ailton é triste fica mais difícil a cada dia. Sabemos que convivemos com seca desde há muito tempo e mudar a situação climática é da região é impossível, más, não entendo o porque de vivermos em um Estado banhado pelo rio da unidade nacional a poucos quilômetros da sua margem e não termos planejamento para acabar com a seca que faz vítimas toda a vida como a vegetação, o gado e ser humano que apenas insiste em viver nessa terra quente e de desafios, elegendo político após político sem que nenhum apresentem projetos efetivos e não paliativos para minorar a dor do povo sertanejo do Estado de Sergipe. 

Na minha avaliação Soninha vai continuar fazendo a pergunta a seu pai, José Ailton, por algum tempo e esse vai continuar sem ter o que lhe responder. Preciso acreditar que chegue alguém sensível a causa da problemática da seca dê atenção empregando seu tempo para estudar e viabilizar projetos para amenizar o sofrimento do sertanejo que vota nos homens da política para que esses sejam capazes de solucionar a problemática social existente como débito do nosso País. 

Meu tio, Ananias Marques, e mais uma vaca sua morta 
Como filho de sertanejo eu me somo a dor de Soninha que fez a pergunta ao seu pai que ficou calado e não pôde lhe responder porque de nada adianta responder a uma criança que ainda vive em um mundo lindo e encantado de sonhos infantis onde a realidade e às lágrimas não existem. 

"Meu Deus, meu Deus
Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai"

Trecho da música "Triste Partida" de autoria de Patativa do Assaré na voz de Luiz Gonzaga

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