Luiz Gonzaga, meu pai e os meus sapatos “Cavalo de Aço”
Canindé de São Francisco/SE – Era um dia em que a minha cidade Propriá estava em festa, não sei por qual ocasião. Papai me chega com uma pequena caixa na mão e entrega-me dizendo que a tarde iriamos ver um artista. Abri a caixa e dentro estava um bonito par de um sapato que na época estava na moda e chamam-no de “Cavalo de Aço”.
Às 16 horas nós descemos para a Avenida Tavares de Lira e ela já estava lotada de pessoas. Era, naquela época, Luiz Chaves o Prefeito. Fez discurso e outros que não me lembro também o fizeram. Depois, já por volta das quase dezenove horas ele foi anunciado em um eco que toda a cidade se fez ouvir: Luizzzzzzzzzzz Gonzagaaaaaaaaaaaa. E o povo aplaudia e gritava acenando coma mão e ele sem dizer nada deu um grade grito dizendo “Vaiiiiiiiiiii boiadeiro que a noite já vem, guarde o seu gado e vai pra junto do seu bem...” começava a cantar e ai meu pai colocou-me nos ombros e eu fique assistindo, nos ombros de papai, o homem show Luiz Gonzaga, nascia ali um ídolo para mim e eu me tornaria seu fã até os dias de hoje.
De vez em quando ele parava o show e contava um causo e eu que era bem menino via todos sorrirem e acompanhava também em longas gaitadas. O show começa e ele dizia “ô meu fio, traga uma pinguinha da boa pru véio” e ai todos voltavam a sorrir. Na verdade, a pinga era água devido ao calor insuportável em meio a tanta gente. O show terminou e meu pai ainda ficou olhando um pouco até que fomos embora para casa e ai já iam mais de dez horas da noite (22:00h) quando chegamos em casa e meu pai, que também tocava sanfona mais não cantava tocou algumas músicas na calçada com outros amigos e fomos dormir. Sai da infância e cresci ouvindo Luiz Gonzaga em minha casa e por onde andava e até hoje em minha pequena biblioteca musical suas músicas fazem parte.
Já depois adulto e morando em Aracaju eu ouvia a notícia de sua morte que me encheu de tristeza. Lembrei do meu pai e sua sanfona Todeschine vermelha tão bem guardada e conservada por ele. Voltei na infância e me vi novamente menino e desse ponto em diante comecei a dar mais valor a sua música e enveredei por sua história e legado observando o quanto de contribuição Luiz Gonzaga deu para a causa de nós nordestinos.
Nos finais de semana eu voltava de Aracaju para casa e lá, na porta de casa ou na de Messias, Ciução, Gilvan, Herílio e sob o acompanhamento de Juca no violão, Asabumba, Triângulo e ganzá nós cantávamos de tudo, más, o forró de Luiz Gonzaga era o carro chefe e o cantor se revessava e eu era um desse cantores. Foi um tempo bonito e de boas músicas que realmente tem boas letras que falam ao coração, protestam, levam mensagens, alegrias e tristeza, más e sobretudo, são boas de se ouvir, cantar e que hoje em dia me fazem refletir sobre nossos valores, história e cultura.
O tempo passou e um dia de sábado meu pai partia justamente nos meus braços num dia de sábado igual àquele que Luiz se apresentou em Propriá e me fez feliz e seu fã. Vítima de enfarte, igual a Luiz Gonzaga, papai deixava sua sanfona vermelha no canto e eu me lembro de uma frase da música de Benito de Paula (Sanfona Branca) que diz: “Aquela sanfona branca, aquele chapéu de couro é quem meu povo proclama, Luiz Gonzaga é de ouro..” e eu encho meu olhos de lágrimas porque nessa vida o que vale mesmo são os bons momentos que vivemos, cheios de tristeza ou alegrias a vida é bonita de ser vivida.
Hoje papai nem existe mais, eu deixei de gostar de festas mais continuo cantando as músicas de Luiz Gonzaga, só que hoje sozinho, sem sanfona, asabumba, triângulo e ganzá. Sem os amigos que também faziam parte do trio de forró junto ao meu pai que também se foram.
De tudo só resta os meus sapatos “Cavalo de Aço” que ainda existem e estão na casa de mamãe, provando que o menino cresceu e não lhe usa mais, más, sem ser medíocre ou desprezar esse amigo de tanto valor eu digo: “Queria ter papai de volta comigo, ser criança e não ter crescido e continuar com ele a ouvir a voz de Luiz Gonzaga, tocando sanfona e cantando Vai boiadeiro que a noite já vem, guarde o seu gado e vai pra unto do teu bem...”
Saudade de papai e Luiz Gonzaga, já meus sapatos ainda continuam por aqui...




Parabéns Adeval pela crônica de sua história. É bom relembrar a infância. Isso é viver novamente uma época porém faltando algumas peças originais. A única forma de compensar essa ausencia será enxugando as lágrimas. Parabéns.
Obrigado meu caro Batista. Esse artigo/crônica eu o fiz numa correria danada. Vou corrigi-lo e fazer outro na mesma direção.
Abraço e obrigado por nos acessar e comentar.